9 de jun de 2016

A entrevista

Acordei com a minha barriga brigando com o mundo. Toda vez que tenho um compromisso desses ela fica sentimental.

Tomei um Sal de Frutas e fui pensando em todas as tragédias possíveis. Nós, que temos esses probleminhas, pensamos em muita coisa ruim. Para garantir, fiz minhas orações, acendi uma vela e deixei todo mundo em casa avisado.

Vesti uma roupa básica, sem muita cor. Na pele, só o meu protetor solar que ajuda a disfarçar as marcas de acne.

Acne é como ex, deixa sempre umas cicatrizes horrorosas, que só trocando de pele e coração para tampar os buracos. 

Virei duas xícaras de chá de camomila e, mesmo assim, meu coração ainda pulava feito um canguru agitado.

Não me atrasei, cheguei no horário combinado. Nunca chego antes... é uma estratégia pra não pensar muito e desistir. Funciona quase sempre.

Sem ninguém perceber, sequei na calça as duas cachoeiras que inundavam as palmas das minhas mãos.

Me apresentei sem gaguejar, respondendo todas as perguntas sorrindo, aparentando estar calmo e feliz. Sempre quando estou muito tenso, imagino que sou um ator extremamente talentoso e que tenho que interpretar um cara confiante e tranquilo, meio hippie. Uma onda "paz e amor".

Ou seja, interpreto o ator e o personagem do ator. Sou muito talentoso sim!

Só sei que a entrevista durou vinte minutos no relógio do mundo e doze horas no meu.

Se passei? Talvez... Mas de uma coisa eu sei: no mundo dos ansiosos, todo compromisso é como o nosso primeiro dia de aula em uma escola nova. Tudo o que a gente mais quer é voltar para casa e se jogar no lugar mais calmo do mundo: a nossa cama.


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